Platão nunca viveu esse drama sofrido.
Como ele chegou a essa conclusão?
Como ele percebeu e nomeou, esse amor escondido e não correspondido, de "platonismo"?
Eu não a considero uma...
Sou platônica. Demais por sinal...
Carrego um mundo de ideias dentro de mim. Mas expôr esse amor envolve outros sentimentos como medo de ouvir um não, de ficar em segundo plano, medo de haver outras pessoas melhores que eu mesma, ainda que meu coração diga que a pessoa perfeita para estar ao lado desse amor seja, ninguém mais além de, mim mesma. Eu sempre fui conquistada. Conquistar são outros trinta...
Orgulho besta quando ligamos e a pessoa diz
"não vai dar" ou simplesmente não responde às sms...
(Pq vcs homens não respondem as nossas sms? A gente fica esperendo >< )
Orgulho besta, sim... Se eu sou melhor, por que tenho medo de ouvir um não...?
Porque, daí, vou perceber meus erros, e meus medos vão se agigantar, e as vozes na minha cabeça vão dizer:
"Sai dessa"
"Ele não te merece"...
Mas outras vozes retrucam, num duelo sem fim, como:
"Se você não disser o que pensa,
como ele vai saber o que sente por ele?"
"Não tenha medo de procurá-lo"
"Diga que tem saudade"
"Diga que gosta quando ele te liga"
"Ele simplesmente reage de acordo com suas atitudes. Você se cala, ele some..."
Duelo de vozes...
Será que eu sou a única que tem um mundo dentro de mim?
É como se existissem milhões de seres dentro da minha cabeça, cada voz diz o que pensa, como quer, e eu, aqui fora, vou ouvindo e pescando as melhores falas. Como um apresentador de TV e o diretor gritando, no ponto ao seu ouvido, as coisas que deve fazer, rsrs... bela comparação!
Mas o platônico é teimoso. Ele continua ali, alimentando aquele amor, procurando maneiras interessantes de chegar até essa pessoa, ensaiando como dizer, como fazer, no caso das mulheres o que vestir, que cor usar...
E, de repente, bate a insegurança, ou as palavras frias de uma pessoa do mundo real destroçam a pouca coragem que estava nascendo. Aí, o platônico se torna louco, e sofre.
"Ser ou não ser... Eis a questão...!"
"Falar ou não falar..."
"Tentar, pelo menos..."
Estou no meu momento de loucura e que loucura!
Os meus pensamentos se tornam um grande problema a ser resolvido. Na verdade, eu é que o torno grande... Vemos aquilo que queremos ver. Insegurança...
Eu sozinha no meu quarto, na companhia do vento que canta ao passar pelo vão da janela entre-aberta. Acho que ele canta como backin' vocal dessa minha canção platônica. Eu escrevo, ele canta. Eu paro, penso, ele se cala. Quando eu escrevo, ele canta... "Zephiro, meu amigo, cante comigo... Uuuh...." Hauahuahua... Acho que vou compor uma musiquinha, assim:
"Zephiro, meu amigo, cante comigo... Uuuh....
Essas palavras que eu te digo...
Ele não me quer, mas eu não ligo.
Tenho vc que é meu amigo... Uuuh...."
Hauahahuahuaa...
Acho que é por isso que eu escrevo, desenho, canto, componho... Por ser platônica, sonhadora e insegura. Divido minhas loucuras com o papel e o microfone. E, há pouco tempo, elas estão aqui, online, para ajudar outras pessoas como eu. Quem sabe não formamos uma comunidade. A gente sempre pensa que é sozinho. Existem milhões de seres iguais a nós. Iguais em sentimentos, porque vou defender o fato de sermos únicos e especiais.
Bem, já estou voando em outros assuntos.
Esse vento, cantando, me leva para longe...
Mas péra, e o Platão e a tal sacerdotisa? Como surgiu tudo isso?
Poxa, nada a ver... olha só, eu mairando platônica nas ideias e quando fui pesquisar... meu castelo de cartas, construído com a mais mairante das ideias sofridas sobre sentimentos amorosos, simplesmente desaba. Puufff...Porque… platônico, platonismo, amor platônico… nada disso foi criado por Platão.
(Aaaaahh em coro)
Não. Não foi Platão que inventou o tal “amor platônico”.
Como não? Na verdade, tudo começa com um texto que ele escreveu. Um gênero literário quase esquecido hoje, chamado diálogo, onde toda a narrativa acontece por meio de falas, como uma peça sem palco, sem narrador, sem luz cênica. Um diálogo frenético, louco, cheio de ideias passando de mão em mão como taças de vinho. (Iiick)
E dentro desse texto, chamado O Banquete, Platão coloca vários personagens conversando. Inclusive Sócrates. Sim, Sócrates mesmo, transformado em personagem literário, discutindo o Amor como quem desfia o próprio destino. Eu fiquei confusa. Mas bora entender.
Nesse texto é Sócrates, não Platão, (hahahaha viixiiii inverteu tudo na cachola agora) é quem diz ter aprendido o que é o Amor com a tal da Diótima de Mantineia. Uma figura que nem aparece fisicamente no texto. Ela só é mencionada, evocada como uma alma sábia, um fantasma pedagógico que sopra conhecimento no ouvido dele.
E é aí que a grande ficha cai:
Não existe “platonismo amoroso” em Platão.
Não existe “amor platônico” no sentido de paixão não correspondida.
Não existe essa sofrência toda que eu mairei aqui atrás.
Tudo isso… é invenção posterior.
(Aaaahh não! em coro)
Quem pegou o discurso filosófico e transformou em “amor impossível” foi o mundo. Bem a cara do mundo mesmo rs. Foi a cultura. Foi a leitura romântica de séculos depois, especialmente lá na Renascença, reinterpretando o texto como quem cria um monstro adorável. Muito telefone sem fio isso rs
O chamado “amor platônico” é uma criatura cultural que nasceu muito tempo após Platão, alimentada por séculos de interpretações, como um vampiro renascentista elegante sugando espírito dos diálogos filosóficos e transformando metafísica em romance, contemplação em drama, ideia em sofrimento humano.
Platão não viveu esse drama.
(Grilo cricrilando....)
Nós é que projetamos o drama nele. Nós criamos o termo. Nós transformamos filosofia em febre emocional. Em sofrêeenciaa!
Mas aqui eu permito que minha mente costure, com fios de sombra e lucidez, uma coisa que percebi e que talvez poucas pessoas tenham percebido. Tá, vai, talvez muitas tenham. Talvez eu esteja apenas desenterrando o óbvio, óbvio! Mas, como estou aprendendo literatura, escrita e narrativa, minha cabeça mairante pescou duas grandes obras que, conscientemente ou não, beberam desse Banquete de Platão.
Óh, maira comigo:
A primeira é Noite na Taverna, do nosso Álvares de Azevedo.
E não acho que seja coincidência: ele fez exatamente a mesma arquitetura de Platão em O Banquete, a mesa, a noite, o vinho, os delírios e um grupo de jovens poetas boêmios, aqueles seres que vivem na noitada, recitando versos, tombando taças, desfiando fatalidades.
E lá estão eles: encostados na mesa, derramando histórias de amor, desilusão, mortes poéticas, tragédias sensuais. Sacou? Mairou? Cada um conta um pedaço de si, num diálogo febril que parece não ter começo nem fim. Me diz se não é um eco direto do Banquete, um círculo de vozes confessando o mundo interior? Eu mairei essas duas obras e costurei.
A segunda obra que minha mente costurou, e essa me fez rir sozinha, porque também “bebeu no Banquete de Platão” ficou simplesmente perfeito, que eu sei que foi, não me digam que não, é Dom Casmurro, do Machado. (aí, tio Joaquim, teu segredo está guardado comigo.... descrito no blogger... xiii...) E aqui, a conexão é sutil, mas sombria e genial.
Porque a Capitu é uma Diótima invertida.
(Ooooooh em coro)
Pense comigo:
Uma “mestra do amor” que não aparece plenamente na história, não fala por si, não se defende... Ela é construída pelo discurso de um homem e existe como fantasma, assombração de dúvida, não um espírito sábio como Diótima, e sim, uma sombra projetada pelas inseguranças, pelos ciúmes, pela neurose do narrador Bentinho.
E eu, que estou no começo dos meus estudos literários, quase iniciante ainda, fiquei chocada comigo mesma por ter pescado isso. Foi muito mairante.
(aplausos!)
Como é impressionante perceber que é possível tecer coisas novas, tecer, palavra que peguei emprestada com Andrea del Fuego, que diz que toda escrita é tecelagem, a partir de referências que vêm de tão longe no tempo.
Bem, Platão viveu séculos antes de Cristo (428 a.C. — 348 a.C., pra situarmos a linha do tempo), e ainda assim suas estruturas narrativas, suas sombras, seus silêncios e suas ausências continuam atravessando a literatura como fios invisíveis. E nós, leitores e escritores, seguimos puxando esses fios e transformando em novelos novos, tecidos novos, histórias novas. (amei, Andrea, obrigada por emprestar a expressão)
É isso… me arrepiou inteira.
Conclusão
Talvez ser platônica não seja uma doença, nem um defeito, nem esse excesso dramático sofrido que tentei diagnosticar nas linhas de cima.
Talvez ser platônica seja simplesmente ser tecelã de mundos. Carregar dentro do peito um salão de vozes. Talvez as mesmas vozes que Platão e Alvares de Azevedo transcreveram em suas obras. Um banquete interno onde vários personagens personificados pelos próprios medos bebem juntos, e eu escuto todos, dentro deste salão, mesmo quando queria silêncio.
Sim, eu amo demais.
Sim, eu sofro demais.
Mas, no fundo, eu prefiro esse excesso a ficar seca, dura, fossilizada.
Prefiro o risco de amar ao conforto do nada.
E quer saber?
Mesmo entendendo que o tal “amor platônico” nasceu muito depois, na fofoca de boca em boca do mundo em sofrência, por mãos humanas que precisavam nomear a dor impossível… eu ainda escolho amar.
Amanhã é outro dia.
Eu sou aquilo que acredito ser. E já que a vida é um diálogo, às vezes frenético, às vezes silencioso, eu vou entrar nele de peito aberto. Eu prefiro atravessar a noite com o coração aceso do que passar a vida inteira fossílizada.
E que Zephiro sopre por mim.
Maira Macri.
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