A Voz na Sua Cabeça Quer Virar História
Pulou na minha mesa, derrubou minhas coisas e me encarou com aquele olhar pequeno, espremido entre as pálpebras:
Acho que todo o ser humano tem uma criatura insistente assim, miando dentro da mente, exigindo atenção, até resolver tal assunto pendente na cabeça. Isso é válido pra várias coisas, num modo geral. Pra quem escreve, é mais intenso ainda, pois tem a auto cobrança de dar vida a algo que parece ter vontade própria.
O meu gato preto imaginário sentou no teclado. Uns mordiscam a panturrilha criativa enquanto você tenta fingir que não tem uma história nascendo (meu gato preto de verdade dá lambidinhas na nossa perna, gente, que foofoo).
Vai me dizer que abriu esse artigo só pra conferir que não tem nada a ver com o seu caso?
Hehehehehehe, sei...
Sim, este artigo é pra você, que vive perseguido por uma ideia com olhos amarelos e rabo de chicote, e que só vai sossegar quando ganhar vida no papel.
Pega a caneca, ajeita a postura.
O gato já está ronronando e esperando.
Aqui vai, na caneca, 5 dicas mairantes, cheias de caos e brilho gótico, pra quem vive com esse ser narrativo miando na cachola:
1. Abra as portas do seu cérebro antes que ele arrombe
Isso, já chega com tudo, né?
Personagem que não quer te deixar em paz não é sugestão: é aviso.
Você até já sonhou com ele....
Senta, abre uma página em branco e deixa ele falar. Sem roteiro, sem planejamento, sem freio.
É psicografia ficcional, caro leitor, deixa vir.
2. Trate o personagem como um hóspede indesejado mas inevitável
Ele não vai embora se você ignorar. Tem que dar uma atençãozinha... tem que servir café...
Então, vai lá, alimenta com 10 minutinhos de escrita por dia.
É igual gato preto no teclado: se você não der atenção, ele deita em cima do capítulo inteiro.
3. Faça perguntas estranhas e deixe ele responder
“Qual seria a pior coisa que ele faria numa terça-feira?”
“Que segredo ele esconderia de mim, o autor?”
"O que ele vai fazer no próximo capítulo, depois que aprontou o escândalo?"
Essas perguntas abrem portais. Portais são bons. Portais rendem história boa.
Às vezes, a resposta vem embaixo do chuveiro e... corre anotar!
4. Pare de esperar o “momento certo”
O momento certo é ficção científica. É dia 30 de fevereiro, rs.
Escreve no bloco de notas, no banheiro, na pausa do café, enquanto o elevador desce.
Histórias nascem no caos.
Roteiro perfeito é lenda urbana.
Eu uso muito o WhatsApp pra me enviar as ideias, e elas vêm quando? Quando eu fecho os olhos pra dormir....
5. Se estiver com medo de estragar, lembre-se: a primeira versão já vem estragada
Primeira versão não é livro.
Primeira versão é exorcismo.
Depois a gente arruma, lustra, troca as coisas de lugar, reorganiza.
Mas primeiro: deixa o bicho sair.
Muito bem, muito bem. O gato aplaude.
Clap, clap, clap!
Se você chegou até aqui, parabéns!
Já fez mais que metade das pessoas que passam a vida inteira fugindo da própria história.
Eu sou uma delas. Engavetei todos meus textos e histórias por falta de coragem e vergonha.....
Até que o gato se cansou de esperar e invadiu meu teclado e me intimou a escrever profissionalmente.
Lembra, né? Os gatos imaginários aparecem quando querem, dormem onde não devem e só sossegam quando você aceita que, sim, agora elas são parte da casa.
Então respira fundo, abre a janela da mente e deixa essa criatura literária pular pra dentro de vez.
Escreve uma linha hoje. Só uma.
Amanhã, repete o processo. E quando menos perceber, já escreveu uma capítulo inteiro.
Agora vai, o gato preto já está te observando.
Aqui… as vozes nunca se calam.
E o café... nunca esfria.
Maira Macri
Vozes de Caneca
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