Caro leitor de caneca,
Eu colapsei em dezembro.
E não foi um colapso dramático, cinematográfico.
Foi silencioso. Eu cansei. Não dava mais.
Parei tudo. Fiquei dois meses sem escrever.
Larguei o blog. Me afastei dos textos que mais amo, aqueles que me mantêm inteira.
Mas deixa eu abrir meu coração pra você, leitor.
Faz sete meses que minha mãe está de cama.
Ela não anda. Foi perdendo gradualmente a força das pernas, como se fosse uma sarcopenia, bem comum em idoso. E, sem perceber direito, eu virei cuidadora vinte e quatro horas por dia.
Levar comida. Dar remédio. Limpar xixi. Limpar cocô. Ajudar no banho. Ajudar a levantar. Ajudar a deitar. Cuidar da dor dela enquanto engolia a minha.
Não tem pausa. Não tem folga. Não tem “depois eu vejo”.
E, principalmente: não tem eu.
E, em algum ponto desse processo, eu desapareci.
Não posso e não podemos romantizar esse tipo de cuidado com os pais idosos.
É difícil, principalmente sozinho.
No começo, achei que era só cansaço.
Mas o corpo começou a falar comigo de um jeito que eu não podia mais ignorar.
Peguei uma gripe forte.
Meu marido pegou um princípio de pneumonia.
Eu peguei o mesmo vírus, mas, em vez de pneumonia, meu corpo inventou uma bronquite que eu nunca tive na vida. Melhorei… mas a tosse ficou. E a tosse virou laringite.
Hoje eu não consigo falar muito tempo sem tossir.
Se eu sinto um cheiro mais forte, eu tusso. Minha voz raspa. Falha. Some.
É como se falar tivesse se tornado perigoso.
Como se o corpo dissesse: “fica quieta, não chama atenção”.
Ao mesmo tempo, vieram as hemorroidas inflamadas.
Há dias trato. Fui para a UPA com fortes dores, pedindo socorro.
Quiseram me internar para operar em 5 dias.
Mas eu não pude ficar internada. Não pude operar. Porque não posso sair de casa. Porque minha mãe não anda.
É como se, pra cuidar dela, eu tivesse que negligenciar a mim.
E isso adoece mais do que qualquer vírus.
Eu comecei a explodir. A gritar. A perder a paciência. A ficar estúpida com quem não tem culpa nenhuma. E aí vem a culpa por surtar. O loop perfeito.
Mas tem uma coisa que eu sei, lá no fundo:
Isso não sou eu. Não mesmo.
Eu não sou essa pessoa agressiva, explosiva, sem paciência.
Isso é o meu cérebro em modo sobrevivência. Modo alerta.
O mesmo modo que conheci anos atrás, quando passei por crises de ansiedade e pânico.
Acordava todos os dias com medo de alguma coisa que não existia.
Coração acelerado. Falta de ar. Pressão no peito. Tontura.
O corpo inteiro alarmado.
Sem incêndio nenhum.
Foi aí que eu encontrei a neurociência.
E entendi que o cérebro cria trilhas.
Sinapses viciadas.
Que ele se acostuma com certos hormônios, certos estados, certas histórias internas.
Que ele aprende a sobreviver, mesmo que isso custe caro.
Com treino, dá pra sair dessas trilhas.
Eu melhorei uns 70%.
Mas hoje, como cuidadora da minha mãe, eu voltei para esse estado.
E o corpo respondeu. Eu engordei.
Hoje estou cerca de 20kg acima do meu peso. Não porque eu “relaxei”.
Mas porque meu corpo está economizando energia.
Por proteção.
Vou explicar detalhadamente o que significa o modo alerta, para você, leitor de caneca, conhecer, ficar ciente, e se acontecer contigo ou com alguém próximo, apoie, instrua.
Quando o corpo entra em modo alerta, ele faz uma leitura simples e brutal do ambiente que você vive:
O ambiente é perigoso.
Não é seguro relaxar.
Não é seguro baixar a guarda.
O detalhe mais cruel?
Não importa se o perigo é real ou emocional.
O corpo não diferencia.
Para o sistema nervoso, no meu caso, cuidar de alguém, não poder sair, não poder adoecer, não poder dizer não, viver em tensão constante… é ambiente insalubre. Então o corpo se arma.
Como o corpo se arma?
O cérebro ativa o sistema de sobrevivência como se estivesse numa guerra longa, sem trégua.
Ele entende:
- não é seguro descansar
- não é seguro relaxar
- não é seguro emagrecer
- não é seguro gastar energia
- não é seguro se expor (falar, cantar, existir)
E aí ele reage.
No cérebro
- cortisol alto
- adrenalina constante
- vigilância exagerada
- dificuldade de desligar
- ruminação mental
O cérebro vira um radar ligado 24h.
No corpo
- retenção de gordura (estoque de sobrevivência)
- barriga dura (proteção do centro)
- estômago tensionado (digestão em alerta)
- intestino preso ou irregular
- inflamação difusa
- voz travada / laringe sensível (porque se expor parece perigoso)
- falta de ar abdominal (o diafragma não desce, fica em defesa)
O corpo vira um bunker biológico.
Na relação com a comida
O cérebro pensa assim:
Preciso de energia rápida.
Agora!
Vai que piora...
Então ele:
- pede açúcar
- pede carboidrato
- pede prazer imediato
- oscila a glicose
Não é descontrole.
É estratégia de sobrevivência.
No peso
Em modo alerta:
- emagrecer = risco (você fica "frágil")
- soltar gordura = vulnerabilidade
- relaxar = perigo
Então o corpo segura.
Você não engorda porque falhou.
Você engorda porque o corpo está tentando não morrer.
A parte mais importante (e mais esperançosa)
O corpo não é burro.
Ele é obediente.
Quando o ambiente interno começa a dizer:
- “está seguro agora”
- “posso descansar”
- “posso dizer não”
- “posso existir sem desaparecer”
o corpo desarma.
E quando ele desarma:
- a barriga amolece
- a respiração desce
- a voz volta
- a fome regula
- a gordura começa a ser usada
Não por ordem.
Mas por confiança.
O corpo não engorda em ambientes seguros.
Ele engorda em ambientes que parecem causar perigo à ele.
Quando estudei sobre isso, abriu um portal de entendimento dentro da minha mente.
Claro, é óbvio, nossa, é isso mesmo, faz sentido.
E, vim aqui compartilhar.
Fica acima a descrição desse modo de alerta que pode acontecer com qualquer um. Trabalho tóxico, famílias tóxicas, amizades e amores tóxicos. O corpo reage e entra em modo de proteção.
Em mim, a barriga cresceu de um jeito estranho.
Ela é dura. Projetada pra frente. Não dobra. Não é flácida.
Parece o quê? Um escudo duro de proteção.
E aí tudo começou a fazer sentido.
Quando tenho ansiedade, a dor não é no peito.
É no estômago. A falta de ar vem do abdômen. Não dos pulmões.
O que tem ali?
Meu centro.
Plexo solar.
Estômago.
Barriga.
O lugar do “eu”.
Eu tenho dificuldade de dizer não.
Eu fico em alerta.
Eu engordo.
Eu perco a conexão comigo.
Eu me apago.
Eu me calo.
E o corpo registra tudo.
Tudo ligado.
E sabe o que é mais curioso?
No meio do caos, eu descobri pequenas frestas, uma coisa meio boba e que funciona.
Às vezes, antes de comer algo simples, eu me pergunto:
“Se eu pudesse comer qualquer coisa do mundo agora, o que seria?”
E eu viajo.
Me imagino na Itália, comendo a melhor pasta da minha vida.
Ou no Japão, comendo um yakissoba impossível.
Ou invento uma sobremesa mirabolante.
Parece coisa de criança.
E, por alguns segundos, algo muda no meu cérebro.
Alguma coisa acontece.
Eu sinto prazer. Eu fico bem.
Mesmo sem comer aquilo.
É como se, por alguns segundos, eu saísse do modo sobrevivência.
E entrasse em modo abundância.
E aí eu entendi.
O cérebro não distingue imaginação de realidade.
O corpo responde do mesmo jeito.
Na abundância, o cérebro relaxa.
É por isso que visualização funciona.
É por isso que atletas usam.
É por isso que artistas usam.
Eu me imagino num palco, falando pra mil pessoas.
Tremo. Tenho medo. A voz falha.
Mas eu respiro e digo: “Eu posso.”
E vem uma dopamina boa.
De conquista.
De possibilidade.
Já aconteceu o mesmo quando me imaginei gravando uma música.
Eu fiquei tão emocionada que quase chorei.
Porque, pro meu cérebro, eu tinha cantado.
É por isso que eu amo costurar neurociência com semiótica.
Porque tudo é signo. Tudo é engrenagem.
A engrenagem não para.
Ela só muda o símbolo que gira.
O processo da semiose no universo é como uma vaca ruminante. Ela rumina e não para.
Você não pode pedir pra vaca parar ou impedir que a vaca rumine. É inerente a ela. É a engrenagem da semiose.
Mas pode: trocar 'a coisa' que ela rumina.
Hoje, o símbolo que gira ruminante em mim é:
“pra sobreviver, eu preciso me apagar.”
Quando eu percebi isso, chorei.
Porque eu faço isso há anos. Há anos.
Essa carta é o começo da volta.
Sair do modo alerta.
Trocar o signo ruminante.
Comer sem medo.
Emagrecer sem guerra.
Parar de ter hipoglicemia.
Respirar.
Soltar a barriga.
Recuperar a voz.
Não na força.
Mas na segurança.
Eu não quero mais sobreviver.
Eu quero existir.
E, aos poucos, estou ensinando isso ao meu corpo.
Na respiração, na imaginação, no prazer, na presença.
Dizendo, baixinho pra mim mesma e com firmeza:
Tá tudo bem agora.
Eu voltei.
Essa carta escrevi pra mim mesma, mas pra você também, leitor de caneca, que se encontra numa situação difícil, que não pode abandonar e precisa se manter firme, mas esse firme, muitas vezes vem com embrulhos desagradáveis que o corpo começa a rejeitar.
Uma vez me disseram:
Na vida, tudo você tem que tratar com amor e paciência. Mesmo que doa. Que machuque. Respire fundo, solte, repita várias vezes e entre me modo de amor, porque no amor, não há alarme.
Então, desejo à você, querido leitor, pra qualquer coisa na vida, relacionamentos afetivos, profissionais, familiares, fraternos, desejo que vibre sempre no amor e na paciência.
com carinho, Mah.
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Heeey, bem-vindo de volta ao VOZES DE CANECA.
Aqui… as vozes nunca se calam.
E o café... nunca esfria.
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