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O Dilema Sobre o Bloqueio Criativo

Escrever ou Não Escrever?

Às vezes, caro leitor de Caneca, parece que existe uma pequena entidade felina rondando a mesa da nossa mente, tipo um gato preto que conhece nossos segredos mais vergonhosos: as abas abertas, papeis de caderno rascunhados, papelzinho de bloquinho de notas soltas, guardanapo de cafeteria ou bar rabiscado, dezenas de mensagens pra si mesmo no WhatsApp contando aquela ideia que nunca vinga.. e o café vai esfriando e as ideias ficam travadas. Então, o gato sobe no crânio da nossa inspiração adormecida e mia, com desdém shakespeariano:

— Escrever… ou não escrever?

É aí que a gente percebe que a pergunta nunca foi sobre talento, mas sim, sobre a coragem de escrever. Porque todo artista capaz de criar mundos também é capaz de se perder dentro deles.

Então vamos abrir a janela desse castelo mental e deixar o vento e o sol entrar. Aqui estão dez sopros, dez empurrões góticos, dez iluminações pra desbloquear de vez o texto teimoso envegonhado.

10 Dicas Para Encarar o Bloqueio Criativo (segundo o Gato Preto no Crânio)

1. Aceite o vazio como parte do ritual

O bloqueio é um quarto escuro, mas não um inimigo. Entra devagar, acende uma vela, observa o silêncio. Às vezes a história só precisa que você pare de gritar com ela e a ouça sussurrar.

2. Escreva lixo, o ouro vem depois

O gato olha e ri, mas tudo bem: rascunhos feios são sangue fresco para histórias futuras. Ninguém lapida uma pedra que não existe.

3. Troque de ambiente, nem castelos aguentam eternamente

Uma mesa diferente, vá pra cozinha, ou pra mesinha de centro da sala, saia de casa, um banco de praça, uma cafeteria ruidosa. Leva teu caderno pro mundo e deixa tua página respirar ar fresco.

4. Leia algo que te perturbe

Não conforto, inquietação. Textos que mexem, que arranham. Quando a leitura te move, a escrita se mexe também.

5. Faça listas (até listas absurdas)

Três cheiros que te inspiram, dez formas de um fantasma aparecer na tua sala, cinco coisas que você comeria agora, de qualquer lugar do mundo. Listas destravam engrenagens da mente.

6. Escreva como se fosse para uma pessoa específica

Uma amiga, um leitor, um fantasma, teu eu adolescente. Quando o “para quem” clareia, o “o quê” surge sem forçação..

7. Converse com tua história

Literalmente: pergunte o que ela quer. Às vezes o personagem responde. Às vezes ele xinga. Às vezes ele fuma e te ignora. Mas sempre diz algo. Eu tenho uma história em que o personagem viaja de 1992 pro passado. Eu precisava dele lá pra fazer a linha da história se unir. Era ano de 1665. E o dia todo minha mente repetia quase que em ladainha litúrgica: "O que é que o fulano foi fazer em 1665"? Um belo dia dum dia 'plim', a linha que costura o fulano com o restante da história, apareceu.

8. Mude o ritmo

Se trava na prosa, tenta miniconto. Se trava no miniconto, tenta roteiro, direto e seco.
"Ele entrou, fez café, ligou a TV, se sentou até o dia acabar." Formatos diferentes desbloqueiam neurônios adormecidos.

9. Cuide do corpo, esse velho templo torto

Água, sono, descanso. Um autor exausto escreve como um fantasma tentando segurar uma caneta. Não... escreve como um zumbi, gemendo e babando. Fecha o notebook ou tenha coragem de sair da frente do pc e vai descansar. Sem redes sociais. Teu cérebro precisa de tempo ocioso pra se recompor. Pensa que é fácil o lado de dentro da mente de um escritor? Prateiras empoeiradas cheias de teia de aranha e livros antigos que nunca saíram da tela mental.

10. Termine algo pequeno

Um parágrafo. Uma cena. Um microconto. Uma frase de bom dia. Cada conclusão é um rito de passagem, uma prova de que você ainda governa suas criaturas.

Bônus

Crie uma playlist com músicas que tenham a energia de sua história. Deixei no looping. Ouça por 1 hora se necessário. Releia as suas anotações. Aos poucos, novas ideias vão surgindo e sem perceber, já estará escrevendo.

O gato preto, com seus olhos de brasa lunar, não está perguntando “escrever ou não escrever?”.
Ele está te lembrando que até o silêncio escreve, se a gente deixar.

Eu sempre começo com texto aleatórios. Coloco a música, me concentro e fecho os olhos. Em dez minutos, frases soltas aparecem, tipo:

Dentro dos carros havia algo estranho, algo como acentos almofadados preenchidos de espuma e linho. Havia seda, ouro e um cheiro característico de passagem aérea. Isso, passagem aérea, pois quando voamos, sentimos cheiros de outros gases nas partes mais altas da nossa atmosfera. Os painéis eram digitais holográficos e o carro já tinha comando certo para destino.

Vai parecer piração pura, doidera, mas deixe vir.

Olhos grandes e verdes iluminados. Era um gray. Docilmente parado em minha frente. Um vão se abriu no céu e em milésimos de segundos ele desapareceu. Eu não vi mais nada depois.

Caro leitor de Caneca, as doideras alimentam as prateleiras da mente, viu?
Então respira fundo. Senta, abre teu espaço, aceita o caos. E escreve, nem que seja pra provar pro gato que quem manda nele é você.

Porque aqui, as vozes nunca calam e o café nunca esfria.

MAIRA MACRI
Vozes de Caneca
 


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