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Bots de IA acessam mais o Google do que Humanos...

E agora?
O que acontece com blogs, anúncios e criadores de conteúdo?

Série Vozes Digitais, artigo 1.

Eu fui pega. Caí nessa rede de preocupação como gato curioso.

Tudo começou numa reunião da agência onde trabalho. O assunto chegou à mesa digital, por vídeo-call, lá todos trabalham em home office, chegou quase como aqueles avisos de tempestade que fazem a gente olhar pro céu ainda limpo se perguntando "cadê a tempestade"?
A tempestade: bots de IA estariam acessando mais o Google do que humanos.

E eu, que trabalho com comunicação digital e ainda tenho 3 blogs em pleno 2026, fiz imediatamente a pergunta inconveniente [na minha mente, claro]:

Tá. E nós, blogueiros, como ficamos nessa história?

Por que até então, a internet era coisa de humano, né hahahahah [riso nervoso]. 

Eu vim de uma era anterior, a era da velha e boa Enciclopédia Barsa e as visitas na biblioteca pra encontrar informações relevantes pra então criar conteúdos interessantes. Mas aí chegou a internet em casa e o primeiro portal de notícias era o Yahoo, em 1994. Sem historinhas sobre a desastrosa e infeliz decisão do Yahoo recusar a oferta dos fundadores do Google, em 1998, entregando de bandeja e valor acessível, a maior criação do momento que era o novo algoritmo de buscas, o PageRank. Assistí a queda lenta e dramática da morte do Yahoo em apenas 5 aninhos. Xii, falei.

Então, voltando rs. A grande novidade foi: Acessar uma página digital, diferente da página de papel e fazer perguntas, pedir informações, como se eu estivesse no balcão da biblioteca e a bibliotecária me trouxesse tantos livros pra eu fuçar página por página. A grande sacada do logotipo do Google e o número de páginas que teríamos informações disponíveis em números de 'o's [Gooooooooooogle].

A gente digitava alguma coisa lá. Abriria três, quatro, quinze abas. Entrava em blogs, fóruns, portais, sites especializados. Nossa, quantos... me perdia até na pergunta e fazia jus à expressão 'navegar na web'. Lia. Comparava. Anotava. Voltava. Clicava em alguma coisa. Cansava demais. Talvez até visse um anúncio, né... E essa circulação, esse jeito de fazer pesquisa sustentou boa parte da economia digital que conhecemos, que aprendemos a usar.

Só que agora entrou um novo personagem na sala [como nas velhas salas de bate papo hahaha] Ele é misterioso, desconhecido, uma total novidade. E ainda por cima, ele lê muito mais rápido do que nós.

[Som cinematográfico daqueles baixos graves pra dar suspense: Wooouuum]

Os bots realmente ultrapassaram os humanos?

Segundo encontrei, os dados apresentados pela Cloudflare chamaram atenção porque seu painel Radar passou a mostrar os acessos automatizados representando aproximadamente 57% das requisições HTTP destinadas a páginas HTML, contra cerca de 42% classificadas como humanas em determinados recortes. Isso são períodos, não o tempo todo. Entendi também que Bot não é sinônimo de inteligência artificial pois existem uma série de robôs, os de mecanismos de busca, os das ferramentas de monitoramento, os de automações legítimas, os crawlers, os de sistemas de segurança e uma flora bacteriana inteira de máquinas passeando silenciosamente pelos corredores da web, rs, como dentro do nosso corpo existem milhares de bactérias e nem sabemos rs.

Nos acostumamos rápido com esses agentes de inteligência artificial. Matthew Prince, CEO da Cloudflare, já havia alertado que o tráfego automatizado poderia superar o humano nos próximos anos. O crescimento dos agentes de IA fez essa previsão parecer menos futurista do que parecia há pouco tempo. Já está acontecendo.

E foi aí que minha cabeça começou a mairar, rs. Sempre.

Antes, alguém precisava entrar no site, né?

O antigo caminho era como descrevi lá em cima. O Google encontrava um conteúdo relativo à nossa pesquisa. Entrávamos nos links. Fuçávamos no site. Liamos o artigo. Víamos os anúncios. Talvez clicássemos em um deles. Ou comprássemos alguma coisa. Ou assinássemos uma newsletter. Havia uma troca. Como um grande mural de informações. A pessoa dedicava seu tempo pra criar algo, colocava no mural e pessoas que passassem na frente se interessavam. Em suma, o produtor oferecia informação e o visitante oferecia atenção. E atenção, caro leitor de caneca, como sabemos muito bem que, em publicidade, vale dinheiro.

A IA cortou um pedaço desse caminho

Sim. Foi exatamente isso. Hoje eu posso abrir uma inteligência artificial e perguntar:

“Por que a Catedral de uma cidade foi demolida?”

“Como estruturar um relatório?”

“O que é semiótica?”

“Qual a diferença entre SEO e GEO?”

E receber uma resposta pronta das IAs. Prontinha. Em segundos. Como se a bibliotecária soubesse da informação e a página certa do livro tal. Ela volta pro balcão, responde e ainda abre o livro na página e mostra o parágrafo de onde ela tirou aquela informação. Sem livros. Antes ela trazia os livros e "se vira aí, amiga". Agora não. Ela simplesmente traz pronta. Sem abrir vinte abas. Sem passar por três banners que cobrem metade da tela, chaaaatooooos e poluindo a leitura. Sem procurar onde diabos está a resposta no meio de um artigo que passou seis parágrafos dizendo que “desde os primórdios da humanidade o ser humano sempre buscou respostas” ahahahahahah. Deus! 

Vamos combinar: nós também ajudamos a criar esse pet bot. A internet ficou cheia de conteúdo feitos pra capturar busca, e nem sempre pra responder pessoas. Sério. Agora existe uma tecnologia capaz de atravessar o matagal e trazer a resposta pronta, sem carrapicho nas calças, sem pernilongos. Ótimo pro usuário. Eu amo essa facilidade. Minha rotina é abrir o chat e perguntar: "Estou comendo agora salada de tal coisa, com frango, e tais temperos. Quais nutrientes estou consumindo nesse exato momento?" E ela me dá a lista de vitaminas, sais minerais e o que for que estiver ali naquele prato que coloco pra dentro do meu corpo. Rápido! Maravilhoso! Porém, nem tão maravilhoso pra quem dependia da visita daquela pesquisa.

Se não tem mais visitas, como ficam os anúncios?

Foi justamente essa pergunta que grudou na minha cabeça. Na minha só, não, na equipe toda da reunião. Se as pessoas deixam de entrar nos sites, deixam também de visualizar os anúncios que sustentam os sites. 

Google AdSense. Programas de afiliados. Publicidade programática. Banners. Conteúdo patrocinado.

Boa parte desse modelo depende dos nossos olhos humanos chegando até as páginas. Empresas certamente não vão deixar de anunciar. Publicidade existe muito antes do Google e provavelmente sobreviverá até a próxima civilização interplanetária, ahahah Mas o que estamos prestes a ver é pra onde a publicidade vai se deslocar.

Se a jornada do usuário começa e termina dentro de ambientes de IA, é natural imaginar que novos formatos publicitários apareçam justamente nesses ambientes. Uma chatice de se imaginar. Mas, o anúncio não desaparece. Ele muda de endereço.

Só que existe um paradoxo maravilhoso... e problemático

Uma inteligência artificial pode resumir um artigo. A bibliotecária vem e traz tudo mastigado. Mas alguém precisou escrever o artigo... Aquele livro de onde a bibliotecária tirou a informação. Ela pode encontrar uma pesquisa. Mas alguém precisou fazer a pesquisa. Um autor, um jornalista, um blogueiro. Ela pode comparar opiniões. Mas alguém precisou ter uma opinião primeiro pra existir. E então entramos numa questão, um ciclo de ação e reação:

• Se criadores recebem menos visitas, monetizam menos.

• Se monetizam menos, alguns deixam de produzir.

• Se menos pessoas produzem conhecimento original, há menos material novo circulando pela web.

• Se existe menos material novo, os sistemas que dependem dessas fontes também encontram um ambiente informacional mais pobre...

E entendemos esse perigo... Como se a serpente olhasse pro próprio rabo.

A própria Cloudflare já tinha visto isso

Essa discussão não é apenas filosófica. A Cloudflare começou a desenvolver mecanismos pra permitir que proprietários de sites controlem o acesso de crawlers de IA e até experimentem modelos de cobrança por acesso automatizado. É uma tentativa de responder justamente à pergunta que começou a assombrar editores e produtores de conteúdo, como lá na agência.

O cliente preocupado: Se a máquina consome meu conteúdo, mas não traz o lead até mim, onde está a troca?

Ninguém sabe qual será a resposta definitiva. Talvez surjam modelos de licenciamento. Talvez pagamento por crawling. Talvez novas formas de atribuição. Talvez sistemas que recompensem fontes citadas. Provavelmente teremos uma mistura de tudo isso.

E meus blogs vão morrer?

Aaah. Lá vou eu de novo. Já escrevi um artigo sobre isso.

> Leia Por que os blogs nunca morrem.

Coitados rs. Os blogs já morreram tantas vezes, que acho que adquiriram imunidade sobrenatural, hahahah Mataram muitas vezes. Morreram quando surgiram as redes sociais. Morreram quando surgiu o Facebook. Morreram quando surgiu o Instagram. Morreram quando surgiu o TikTok. Agora estão morrendo por causa das inteligências artificiais hahahah E continuam aqui. YES! 

Talvez o que esteja enfraquecendo não seja o blog. Talvez seja um tipo específico de blog. Aquele feito apenas pra responder perguntas genéricas que já possuem dez mil respostas praticamente iguais. “10 benefícios de beber água.” “5 maneiras de ser mais produtivo.” “O que é marketing digital.” Esse conteúdo agora compete não apenas com outros sites. Compete com uma máquina capaz de ler centenas deles e entregar um resumo. Aff.. Eu já caí nesse conteúdo. Aprendo sempre, né?

Então o que continua tendo valor pras buscas?

Aquilo que ainda precisa nascer de alguém, alguém real, humano: Experiência. Pesquisa própria. Opinião. Estudo de caso. Experimentação. Especialidade. Memória. Narrativa. Uma descoberta que você fez trabalhando. Uma relação que ninguém havia percebido. Um pensamento absurdo surgido às quatro da manhã acompanhado de café que você correu pra anotar pra não perder. A inteligência artificial consegue reorganizar ideias. Mas ela ainda depende de pessoas reais, humanos, produzindo coisas pra elas terem onde pescar.

Talvez a pergunta esteja errada

A pergunta não é: “Os blogs vão acabar?” Talvez a pergunta seja:

O que um blog precisa se tornar para continuar relevante numa internet onde agora as máquinas também são leitoras?

Pergunta de milhões. Porque se antes escrevíamos pensando principalmente em pessoas, e mecanismos de busca através dos SEOs, agora existe um terceiro leitor silencioso percorrendo nossas páginas. A inteligência artificial. E ela pode não clicar no anúncio. Mas pode colocar sua ideia diante de alguém que nunca ouviu falar de você. O Google meio que já fazia isso, mas ficou mais curto o caminho. E olha só, enquanto eu preparava esta série de artigos, [sim, vou trazer uma séria com 4 assuntos importantes], meu próprio Google Analytics começou a mostrar tráfego classificado como AI Assistant chegando ao Vozes de Caneca.

A pergunta que fica, pra refletir

Durante décadas, a internet funcionou com uma troca silenciosa. Criadores produziam conteúdo. Buscadores enviavam visitantes. Visitantes geravam audiência. Audiência sustentava criadores. Agora, as inteligências artificiais estão mexendo justamente no meio dessa engrenagem. E talvez essa seja uma das discussões mais importantes da próxima fase da internet. Não apenas quem vai encontrar a informação, e sim, quem continuará produzindo a informação que merece ser encontrada?

Quem?

Eu não vou deixar de escrever minhas mairâncias.

Agora é aprender a ajustar meu conteúdo para GEO. E o que é GEO mesmo?

Isso fica pra outro artigo, porque aqui, as vozes nunca calam e o café nunca esfria.

MAIRA MACRI
Vozes de Caneca
 


Nota de processo: este artigo foi desenvolvido por Maira Macri com apoio de inteligência artificial na pesquisa, organização das ideias e revisão do texto. As reflexões, opiniões e conclusões são da autora.

Fontes utilizadas: Cloudflare Radar, Cloudflare Pay Per Crawl, Cloudflare Blog

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Obrigada por ler! 

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Comentários

  1. Acho que isso encosta bastante na tal “Teoria da Internet Morta”, mas por um caminho bem menos conspiratório — e talvez mais preocupante.

    A questão não é mais só quantos bots existem. É quem está lendo quem.

    Um humano escreve. Uma IA lê. Outra IA resume. Um humano lê o resumo. Outra IA coleta esse resumo. E assim por diante.

    Em algum momento, começamos a ter uma internet onde máquinas estão produzindo, distribuindo e consumindo uma parte cada vez maior do conteúdo umas das outras.

    E aí tem uma ironia: se a IA passa a responder o humano sem que ele precise visitar a fonte original, quem vai continuar pagando pela produção daquele conteúdo?

    Talvez a “Internet Morta” não seja uma internet sem humanos.

    Talvez seja uma internet onde os humanos ainda produzem o conteúdo, mas deixam de ser o principal público dele.

    Aí a coisa fica realmente interessante.

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