E o que tem a ver com post do Instagram?
Hoje a minha cabeça bugou por causa de uma palavra: posterior.
Eu sabia o que posterior significava. Quer dizer, eu achava que sabia. O problema é que eu sabia de duas coisas aparentemente opostas e contraditórias, flutuando na minha mente. Aí, surgiu a confusão.
Se eu digo:
“Nos anos posteriores àquele acontecimento…”
Posterior está pra frente. Tá... certo... Só que aí temos a região posterior da cabeça... que fica onde? Atrás....e também temos os membros posteriores de um animal... que são as patas de trás.... Não, péra...
Posterior é pra frente ou pra trás?
Minha cachola guardava essas duas informações e fui pesquisar só pra parar a briga lá dentro.
Então, comecei procurando o significado real da palavra posterior e acabei atravessando dois mil anos de linguagem até cair, sabe onde? Num post do Instagram. Claro. Eu amo etimologia e consegui costurar tudo isso... heheheh Arte da minha cabeça mairante.
Afinal, qualé dessa palavra aí?
A palavra posterior vem do latim posterior, relacionada a post, com sentidos associados a “depois” e “atrás”. Ãh? Como assim, depois e atrás? É depois ou atrás...? Ambos. E aí começa a confusão.
Quando a gente usa posterior com relação ao espaço, lugar, ele aponta pra trás: parte posterior da cabeça = parte de trás.
Quando a gente usa posterior com relação ao tempo, ele aponta pro que vem depois: um acontecimento posterior = um acontecimento que ocorreu depois daquele que usamos como referência.
Assim, descobri que o problema não está exatamente na palavra. Está na nossa cabeça. Está em como enxergamos isso. Porque nós transformamos tempo em espaço.
“O futuro está pela frente.”
“Deixei meu passado pra trás.”
“Daqui pra frente vou fazer diferente.”
“Temos muitos anos pela frente.”
• POSTERIOR está atrás no espaço, porém à frente no tempo.
Mas todo mundo pensa o tempo assim? Só eu que não percebia?
Não. Eu também achei. E aí vem a doidera. A maneira como "espacializamos" (não sei se existe esse termo) o tempo não é uma lei cósmica. É uma metáfora. Metáfora, isso mesmo que leu. Porque descobri que existem culturas e línguas que organizam essa relação de outra maneira.
Existe uma língua falada nos Andes, chamada de aimará, que determinados usos linguísticos e gestuais, o passado deles está à frente, e o futuro está atrás. Confuso, de dar nó na cabeça... Mas quando a gente entende a lógica, fica bonita =) O passado está à frente porque podemos vê-lo. Bem lógico. O futuro, por outro lado, está atrás porque não conseguimos vê-lo. Ele ainda não aconteceu. É desconhecido. Faz sentido. A gente não tem olho atrás da cabeça rs
Tudo o que conhecemos está às nossas vistas, à frente, e o passado desconhecido se aproxima pelos nossos ombros, por atrás.
Interessante.
Mas eu comecei essa costura toda por causa de uma palavra. Agora já tô filosofando sobre a percepção humana do tempo... Respira que piora rs. Porque nesse momento eu olhei pra raiz post e pensei: Espera. Post? Post de quê? Post… Postagem? POST DO INSTAGRAM? Pronto.
Abriu outro portal.
Como diabos post foi parar no Instagram?
A primeira coisa que me veio à cabeça foi: postman. O Carteiro. Aquela música do The Carpenters:"Stop, oh yes, wait a minute, mr postman..." Porque post, em inglês, também tem a ver com correio, né? Então, eu tinha:
post = depois;
post = correio;
post = publicação na internet.
Que salada etimológica é essa que estava nas minhas mãos?
A resposta é que nem tudo veio exatamente do mesmo galho. A língua foi juntando histórias diferentes que acabaram chegando à mesma forma escrita e, em alguns momentos, cruzando seus significados.
O post- de posterior, post mortem, post scriptum, pós-guerra vem do latim post: depois, atrás.
É daí também que temos nosso querido:
P.S.
Post scriptum.
Aquilo que foi escrito depois.
Até aí, tudo em família.
Mas existe outra história envolvendo post como posto, posição, estação, relacionada a uma antiga família de palavras ligada a algo estabelecido num lugar.
E essa ideia de postos foi parar no sistema de transporte de mensagens. Antes do nosso maravilhoso botão “enviar”, mensagens precisavam atravessar distâncias físicas. Estradas. Cavalos. Mensageiros. Estações.
Havia postos ao longo dos trajetos onde cavalos e mensageiros podiam ser trocados pra mensagem continuar viajando.
O posto foi ficando tão associado ao sistema de correspondência que post passou a carregar também o universo postal.
Daí:
post office.
postal service.
postage.
postman.
O poste virou posto. O posto entrou na estrada. A estrada carregou mensagens. A mensagem virou correio. Mas ainda falta o Instagram.
Antes de postar foto, a humanidade já postava coisas
Muito antes de alguém fotografar o almoço e achar que a humanidade precisava vê-lo, o inglês já usava to post no sentido de colocar uma informação num lugar onde outras pessoas pudessem vê-la.
Um aviso podia ser posted. Uma informação podia ser afixada num quadro. E aqui está uma costura que eu achei linda de descobrir:
Postar não é exatamente mandar.
É colocar em algum lugar pra ser visto.
Existe uma diferença conceitual entre enviar uma mensagem diretamente pra alguém e deixá-la disponível num espaço público. Você envia uma carta pra uma pessoa. Você afixa um aviso num mural pra quem passar por ali. Então chegaram os computadores. E o que fizemos? Criamos murais digitais, mas ainda sim, murais.
Os antigos Bulletin Board Systems, os BBS, já carregavam no próprio nome a metáfora do quadro de avisos.
Você colocava uma mensagem ali. Outras pessoas entravam naquele espaço e liam. Você não estava simplesmente sending. Você estava posting. E então vieram fóruns. Blogs. Redes sociais. Facebook. Instagram.
Até que hoje alguém diz:
“Vou fazer um post.”
E ninguém acha essa frase minimamente estranha.
E nós ainda aportuguesamos o bicho
Porque brasileiro não se contentou em importar post. Nós pegamos a palavra, demos café pra ela e conjugamos hahah
Eu posto.
Tu postas.
Ele posta.
Nós postamos.
Ontem eu postei.
Amanhã vou postar.
Se eu tivesse mais tempo, teria postado.
O latim atravessou séculos, impérios caíram, cavalos carregaram correspondências entre postos, avisos foram pregados em paredes, computadores transformaram paredes em interfaces e, num belo dia de 2026, eu abro o Instagram e digo:
“Vou postar um Reels.”
A língua não tem o menor respeito pela solenidade da História. Ainda bem.
A internet é muito menos digital do que parece
Foi aí que percebi outra coisa. Nós imaginamos a internet como um universo tecnológico, abstrato, quase imaterial. Mas a linguagem que usamos pra entendê-la é cheia de objetos físicos.
Temos página.
Temos janela.
Temos endereço.
Temos caixa de entrada.
Temos correio eletrônico.
Temos mural.
Temos feed, aquilo que nos alimenta.
Temos thread, um fio.
Temos portal.
Temos nuvem.
Temos timeline, uma linha do tempo.
E temos post.
Talvez porque toda vez que inventamos uma tecnologia completamente nova, precisamos explicá-la pro cérebro usando alguma coisa que ele já conhece. O virtual nasce vestido de metáforas do mundo físico. Uma tela vira página. Um conjunto de dados vira arquivo. Um lugar que não existe fisicamente ganha endereço. Uma sequência abstrata de acontecimentos vira linha. E publicar uma imagem num servidor do outro lado do planeta continua sendo, linguisticamente, quase o mesmo gesto ancestral:
Pegar alguma coisa e colocá-la num lugar onde alguém possa encontrá-la.
A parede sumiu. O gesto ficou.
E tudo começou porque eu não sabia se “posterior” era pra frente ou pra trás.
Essa talvez seja uma das coisas que mais amo nas palavras. A gente usa algumas delas durante a vida inteira sem perceber que está carregando pequenos fósseis na boca. Séculos de deslocamentos, metáforas, tecnologias, impérios, estradas e mudanças culturais escondidos numa palavra aparentemente banal. Eu só queria lembrar se posterior era pra frente ou pra trás. Descobri que pode estar atrás no espaço e adiante no tempo. Do tempo fui pro latim. Do latim fui pro post. Do post fui pro correio. Do correio fui pros antigos postos de mensagens. Dos postos fui pros murais. Dos murais fui pros computadores. E dos computadores caí num post do Instagram. Talvez as palavras sejam isso, pequenas máquinas do tempo disfarçadas de vocabulário. Eu amo etimologia! Por que descobrimos coisas incríveis que atravessaram anos.
Isso me lembrou da birra monumental que tive quando descobri determinada mudança na grafia de muçarela. Depois descobri que açúcar também já teve outra grafia e fiquei mais irritada ainda, porque fui obrigada a admitir uma coisa que meu espírito de designer, amante de sistemas organizados, gostaria de contestar: a língua é viva.
Ela muda porque nós mudamos.
Mas essa minha briga com a muçarela fica pra outro artigo.
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